Estaria a morte incumbida de nos ensinar a viver (para aceitá-la melhor?)

A morte não é apenas um tema presente em nossas vidas. É uma realidade diária de milhões de pessoas em todo o planeta. Tão presente, tão corriqueira e tão próxima que, nos últimos tempos temos vivido uma situação de luto que não cessa com os dias, meses, estações … A palavra em si já não é mais um simples substantivo. Agora assume a “função” de verbo, indicado no tempo presente como estado, imutável.

Os números, as situações, as condições, as relações e as circunstâncias de mortes são tamanhas que não há tempo para engolir um choro antes do outro. Nem tão pouco temos o direito a sofrê-las na dimensão que desejamos e necessitamos. O excesso de violência que presenciamos tem nos conduzido a uma situação surreal: banalidade da morte diante da vida. Temos até sensação de que já podemos esperar mais amanhã e depois outro e mais outros.

O filósofo Epicuro (341-270 a.C.) acreditava que, quando morremos, já não estamos mais em posse dos nossos sentidos e, isso nos tornaria incapazes de sentirmos dor ou qualquer outra emoção, não existindo assim o que temer com a morte. Ademais, era necessário entender a morte como algo desprovido de sentimentos, era uma tentativa de aplacar o sofrimento que pensar sobre a morte pode trazer. Nesse sentido, para aqueles que, assim como Epicuro acreditam que a morte não significa nada e nada se deve temer, talvez aceitá-la, para aquele que morre, não seja a parte mais difícil. A questão é: Estaria este ser preparado? E para quem fica: Como suportar a dor e o sofrimento?

Além das questões propostas caberia ainda refletir: Teria o morto vivido de forma hedônica, assim como, de certo modo, teria sugerido Epicuro? Quer dizer, como saber se realmente fomos felizes antes da morte. Certa vez li ou ouvi que “vivemos o tempo necessário de nossa existência”. Mas qual é o tempo necessário? Necessário para quem?

Tenho uma nova tese: além da morte, podemos ter uma segunda certeza, que é a dor de quem permanece ao lado daquele que não está mais. A dor das esposas que perderam seus maridos, dos filhos que perderam os pais, das mães que perderam os filhos e da esposa que perdeu esposo e filho (meu Deus!). Quanta dor! Acredito que a lição que podemos tirar é que pensar a morte pode nos fazer aproveitar melhor a vida. Estaria, dessa forma, a morte, predestinada a nos fazer refletir sobre a vida. Alguns dizem: a Filosofia nos prepara a morte! Eu digo, junto com Epicuro: a certeza da morte nos faz pensar sobre a incerteza da vida.

Nosso projeto está evoluindo

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Permacultura urbana: momento de preparação de materiais para a horta vertical.

Como escrevi no primeiro post desse blog, um dos desafios que recebi em 2018 foi o de ministrar duas disciplinas  eletivas. Uma delas (que eu mesmo propus) é a de Permacultura Urbana, onde objetivamos discutir o atual modelo de produção de alimentos à lógica do capitalismo em detrimentos da conservação e preservação do meio ambiente assim como da saúde humana. O avanço do capital agrário, sob o pseudônimo de agronegócio, sobre o campo brasileiro, sobretudo a partir da década de 1960, vem ampliando o latifúndio, a violência e expulsão de milhares de agricultores e agricultoras de suas terras ancestrais. Além do debate sobre essa temática, também discutimos os caminhos alternativos à produção saudável de alimentos, numa economia justa, que ofereça à população comida livre de venenos (agrotóxicos).

Essa proposta de discussão procura promover o debate em torno dos padrões de produção do campo bem como o risco que esses alimentos, ditos saudáveis, oriundos do agronegócio podem trazer à população mundial, visto que esses mesmos padrões se repetem em outros países. Assim, compreender como se produz e a que preço, pode contribuir para que os envolvidos nessa eletiva passem a repensar seu padrão de consumo. Mas que isso, visa trazer à tona a agroecologia como proposta viável de produção e, assim, de relação entre sociedade natureza.

Trata-se de uma questão interessante, pois temos em nosso país vários exemplos de empresas que vez ou outra são expostas na mídias com casos de adulteração de alimentos, como leite, carnes, embutidos entre outros que apresentam algum tipo de risco à saúde humana. Paradoxalmente, um país com as dimensões e os recurso naturais que temos, ainda  se faz valer de métodos mesquinhos, onde a busca do lucro se faz maior que a saúde dos consumidores. Não só repetimos os mesmo erros que outros já cometeram, mas também utilizamos técnicas e produtos que já foram banidos há muito tempo de outras nações.

Assim, a permacultura, que “abraça” a agroecologia se propõe a repensar essa questão bem como por a “mão na massa” e mostrar que também somos capazes de produzir o que vamos consumir nem nossas mesas. Na foto acima, momento em que iniciamos a preparação de alguns petes para servir de suporte para nossa hosta vertical que deve dar início ainda nesse mês de abril. Quem sabe, antes das férias já comecemos a colher o fruto de nossas práticas. Quem viver, verá! 🙂

Bonito pra chover

Temo bonito de chuva, no sertão cearense.

É assim mesmo. Aqui no ceará quando olhamos para o céu e ele está assim, escuro, com nuvens carregadas já se diz logo: “eita tempo bonito pra chover!”. Não só aqui, mas em todo o nordeste se tem essa empatia com esse tempo. Diferente do sentimento que ocorre em outras regiões do Brasil aqui se traduz em esperança e alegria que contagia sertanejos e sertanejas de muitas gerações.

A esperança é por uma boa estão chuvosa, fartura nos roçados e a certeza de boa colheita com mesas fartas de milho, feijão, jerimum, melancia e toda toda sorte de alimentos que se planta por aqui.

Os mais antigos e sábios fazem a interpretação da natureza e quase sempre acertam. Os “profetas da chuva”, como são chamados, hoje teem reconhecidos suas sabedorias e são ouvidos pelas agências meteorológicas quanto a previsão do tempo na pré-estação chuvosa.

Não por menos quase sempre acertam. Assim, olhar para os elementos da mãe terra e interpretá-los, nos ajuda na fé de tempos bonitos para chover, na esperança de dias melhores, de comida na mesa, alegria no rosto e a certeza de que a labuta diária sempre vale a pena.

O apagão e a memória

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Estudei à luz de lamparina até pelos menos meus 11 anos 

Vocês não fazem ideia de onde estavam meus pesamentos ontem a noite durante o apagão. Aqui no Ceará foi de mais ou menos entre 15h até por volta de 21h. Demorou… O fato é que fui levado à lembrança de minha infância feliz em família humilde lá nos idos de 1988. Naquele tempo morávamos em um sítio no bairro Jurema, no município de Caucaia, circunvizinho de Fortaleza. Como se diz por aqui, desde que me entendo por gente até por volta dos meus 11 anos morávamos em casas que não dispunham de energia elétrica. Isso mesmo, não tinha eletricidade na casa.

Vendo algumas matérias aqui, como esta do jornal O POVO, onde relata que com apagão, vizinhos acendem fogueira e fazem churrasco na rua, me senti viajando no tempo e no espaço. Isso foi fantástico, pois me relembrou de como era nossa vida quando não tínhamos energia em casa. Geralmente, a noite, todos saíamos às ruas, os vizinhos se reuniam e ficavam horas e horas contando causos do passado que tinham acontecido consigo mesmo ou com conhecidos. Isso sem contar as histórias de assombração. Um imaginário fantástico se construía em nossas cabeças. Quando não, pegávamos  o velho radinho à pilha e ouvíamos um programa bastante popular de uma rádio AM chamado “Clube do Brega”.  Acho que ainda hoje existe. Fazia parte da diversão pegar algumas fichas de “orelhão” e, durante a transmissão, ligar para o programa e pedir uma música dedicando-a à algum vizinho ou parente que estive naquele momento na roda de conversa. Tudo isso ia até por voltas 21h. Depois disso dormir. Isso mesmo, dormíamos cedo.

O espetáculo mesmo ficava por conta do céu estralado e iluminado em noite de lua cheia. Ah, como era bom! A gente conhecia todas as pessoas da rua, sabíamos os nomes e os parentescos. Se duvidar sabíamos isso de uma três ruas acima e abaixo da nossa. A melhor parte mesmo, era não ter medo de andar nas ruas, mesmo a noite! Não havia essa violência toda que há nos dias atuais nas grandes cidades. Nem tão pouco o risco de sermos abordados por alguém vendendo drogas. Estudar? Sim, à luz de lamparina. Era engraçado, não reclamávamos. Eu só achava ruim mesmo era ter que trocar o pavio porque a gente sempre se sujava com o querosene para poder embebedá-lo. Fora isso, de boa.

Essa lembrança foi muito boa. Do tipo que nos faz pensar: “Eu era feliz e não sabia”. É claro que com a chegada da energia elétrica e com ela a iluminação pública essa práticas foram acabando. Pouco a pouco cada casa ia adquirindo um aparelho de televisão e aqueles que compravam primeiro sempre recebia os vizinhos para assistirem as novelas noturnas. Com um tempo isso foi se popularizando a ponto de cada casa uma TV. Acabou as conversas nas calçadas e os vizinhos  foram ficando estranhos. Coisas da pós-modernidade :/ .